ABRANTES | PROFISSIONAIS DA URGÊNCIA DO HOSPITAL DE ABRANTES APRESENTAM MANIFESTO PELA MELHORIA DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO APRESENTANDO SOLUÇÕES

 

Pela melhoria das condições laborais e para uma melhor prestação de cuidados de saúde aos doentes, os Enfermeiros e Assistentes operacionais do Serviço de Urgência Médico-Cirurgica do Hospital de Abrantes, realizaram esta manhã um protesto, onde apresentaram em bloco a transferência de serviço, medida tomada em protesto contra as condições actuais a que prestam serviço. Após apresentação do documento ao conselho de administração e após reunião com a enfermeira directora do CHMT, estes profissionais fizeram um manifesto onde demonstram o porquê desta luta e onde são proposta soluções para melhorar as condições de trabalho que por sua vez irão melhorar a prestação dos cuidados de saúde, que afinal é para que serve este serviço.

 

Protesto Hospital de Abrantes 030418 | Foto: P.cruz

 

Apresenta-se na integra o manifesto que os profissionais entregaram ao Conselho de administração do CHMT, onde é manifestado os problemas que têm actualmente e onde se apresentam soluções de quem sabe e labora com as adversidades no seu dia a dia.

 

MANIFESTO

POR CONDIÇÕES DE TRABALHO DIGNAS E CUIDADOS DE SAÚDE DE QUALIDADE E SEGURANÇA

A equipa de enfermagem do Serviço de Urgência Médico-Cirúrgica do CHMT da unidade de Abrantes vem transmitir a profunda preocupação pela falta de segurança e qualidade dos cuidados prestados, que está naturalmente relacionada com a falta de condições de trabalho.

Este serviço de Urgência ao longo dos últimos 5 anos tem sofrido algumas alterações com a centralização da Urgência Médico-Cirúrgica neste Hospital, entre as quais receber utentes de vários concelhos como (Abrantes, Mação, Sardoal, Vila Rei, Gavião, Ponte de Sor, Tomar, Torres Novas, Entroncamento, Fátima, Ourém), entre outros. Ao longo destes mesmos anos temos vindo a aumentar o número de admissões neste serviço, (diretas e transferências dos Serviços de Urgência Básica de Tomar e Torres Novas), complementado com um maior grau de complexidade nos cuidados a prestar a cada doente, sendo que se tem vindo a verificar a admissão de utentes cada vez mais idosos. Muitas das admissões diárias são transferências da urgência básica de Tomar e Torres Novas. Esta situação verifica-se ao longo de todo o ano, não é só em tempo de gripe.

O cansaço físico e psicológico dos profissionais que trabalham neste ambiente penoso e de risco, leva-nos a relatar o que aqui se passa, pois não poderá a responsabilidade ser atribuída a quem não tem outra alternativa a não ser tentar fazer o melhor que pode a tantos milhares de pessoas que aqui se dirigem, na esperança de encontrar ajuda para o seu problema mais ou menos grave, mais ou menos urgente.

Somos poucos recursos para dar resposta a tantos doentes que se acumulam em macas lado a lado, a ponto de se tocarem, esperando longas horas por um cuidado, uma resposta ou um simples olhar.
Tantos, que por vezes até se torna difícil chegarmos perto.
Desde o dia 1 de Janeiro de 2018 a Urgência de Abrantes tem tido em média 67 doentes internados por dia, chegando a ficar internados na urgência vários dias, por vezes até completar uma semana, ou até mais, quando na verdade, nem deviam de existir “internados” na urgência!

Para minimizar os doentes em corredor foi aberto uma enfermaria (UOM2), com espaço para 14 doentes, assegurado pelos enfermeiros da urgência, recorrendo na maioria das vezes a trabalho para além do horário que temos a cumprir. Esta medida não retirou qualquer doente ao corredor, mantendo-se exactamente como antes.

A equipa já se encontra sobrecarregada com turnos extraordinários de modo a colmatar o absentismo, na maioria dos turnos 1 enfermeiro presta cuidados a 12 doentes, ou mais. Cuidar de um doente implica higienizá-lo, alimentá-lo, administrar-lhes medicação, controlar sinais vitais e avaliar sintomas, verificar que exames têm para realizar, efectuar colheitas de sangue e urina, cuidados especiais e ouvir as suas preocupações, dar-lhes atenção e à sua família. Poucos para controlar e amparar os que sofrem com dor, os que gemem e gritam toda a noite porque não sabem onde estão.

Não esquecendo sempre que é necessário um enfermeiro para efetuar transferência de doentes, enfermeiro este retirado dos cuidados aos doentes sobrecarregando a equipa já exausta.
Para todos os outros que estão lá fora, esta realidade é desconhecida, até que se torna pessoal e de máxima importância no momento em que necessitam.

Pensar em controlar as infeções associadas aos cuidados de saúde, quando o “isolamento” é feito apenas, e só, por escassos centímetros do ar que separa os doentes, é mera ilusão. A inexistência de unidades de isolamento em urgência nos hospitais para manter isolados os doentes infetados com bactérias resistentes, evitando assim o contágio a outros doentes.

Para onde caminhamos quando não conseguimos respeitar a privacidade de cada pessoa, quando não podemos garantir a dignidade de morrer?

Sabemos que:

  • • Não conseguimos prestar mais cuidados, do que aqueles que já prestamos em simultâneo.
    • Não conseguimos cumprir o horário da medicação, e a probabilidade de erro aumenta por estarmos sobrecarregados e exaustos.
    • Quando não há mais macas onde deitar os doentes, já tendo esgotado cadeirões e cadeiras de rodas com todos aqueles que apresentam capacidade para permanecer nelas, comprometemos o socorro pré-hospitalar a outras pessoas porque as ambulâncias ficam retidas à porta do hospital.
    • Não conseguimos mobilizar doentes sozinhos porque não existe o número de auxiliares que era suposto existir e, estes, tal como nós, consomem-se em mil e uma tarefas.
    • O número de enfermeiros/auxiliares do serviço está abaixo do estipulado nas fórmulas de cálculo de pessoal,
    • A precariedade e o pouquíssimo tempo de integração e formação em urgência, independentemente da sua experiência profissional é a realidade.
    • Não temos culpa de existirem pessoas internadas num serviço de urgência confuso, desumano, em que praticamente não dormem e são despojadas dos seus pertences, e em que o contacto com os seus familiares é muito limitado.
    • Constatamos todos os dias a falta de conforto dos doentes acomodados em macas estreitas, pequenas sem almofadas por escassez destas, com elevado risco de queda e feridas.

Ninguém resiste tanto tempo a trabalhar nestas condições, não temos outra hipótese senão, por vezes, colocar baixas médicas, por exaustão, por depressão e por lesões músculo-esqueléticas.

Não aceitamos trabalhar mais nestas condições. Queremos um trabalho digno para poder respeitar o direito à saúde com qualidade e segurança a quem a nós recorre.

Por forma de manifesto, uma grande parte destes profissionais enfermeiros e auxiliares fez pedido de mobilidade de serviço.

PROPOSTAS DE SOLUÇÃO

Exigir o cumprimento da Lei, assim como as orientações e recomendações abaixo identificadas:

Admissão, tendo como referência o Regulamento n.º 533/2014 da Ordem dos Enfermeiros – Norma para o Cálculo de Dotações Seguras dos Cuidados de Enfermagem, dotando a urgência do número de enfermeiros e Assistentes Operacionais para fazer face não só ao número de atendimentos, mas também para cuidar condignamente dos que ficam internados;

Criação de uma escala de transferência de doentes urgentes, em regime de prevenção, à semelhança da que existe em outros hospitais ou repor a equipa de transferências que em tempos existiu nesta urgência (com elementos supra numerários).

Espaços próprios destinados a isolamento de contacto e a construção de quarto(s) de isolamento com pressão positiva e negativa para isolamento respiratório, respeitando a Guideline for Isolation Precautions: Preventing Transmission of Infectious Agents in Healthcare Settings 2007, disponível em http://www.cdc.gov;

Caminhar no sentido do parecer da Ordem dos enfermeiros N.º – 20/2015 “Competências do enfermeiro chefe de equipa dos serviços de urgência”, sendo que deverá ter, dotação de enfermeiros especialistas em pessoa em situação critica; Nas escalas de trabalho deve ser assegurada a distribuição equitativa dos mesmos pelos vários turnos; Dispondo o serviço de urgência de profissionais com estas competências, deverão ser estes a exercerem as funções de chefia de equipa, sendo que deverão ter funções efetivas de gestão de equipa e não assumir as funções que assumem atualmente: sala de emergência, balcão de Medicina (corredor), entre outras…

 

Protesto Hospital de Abrantes 030418 | Foto: P.cruz

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